Outro dia fui aos fundos da casa buscar as toalhas no varal. Percebi que o silêncio tomava conta do ambiente. As crianças não corriam na rua, os vizinhos não brigavam e o jovem roqueiro – eu tenho vizinho roqueiro, fazer o quê – não ligou o som às alturas. O camaleão me assustou deslizando seu corpo ligeiro pelo mato. Olhei pro alto e vi o céu sendo tomado pela escuridão das nuvens cinzentas. A tempestade vinha como filme cheio de efeitos especiais: raios e trovões. O vento frio e úmido balançava a antena da TV. O gato miava caminhando no muro à procura de abrigo. Limpei o varal rápido. Entrei e comentei com meu irmão que vinha tempestade. Darlon deixou o computador, correu até os fundos pra verificar meu comentário medroso. Desligamos os aparelhos, pois os raios já nos deram prejuízos. Sentamos na sala e meu irmão puxou assunto enquanto esperávamos o pior. Falamos da morte do Clodovil, da crise mundial, da vida, do Obama, de cotas – somos a favor -, de racismo, de gente que se foi, dos amigos que sumiram, de dona Zezé – nossa mãe -, de cursos, de antigos escoteiros, de Deus e de outros assuntos. De repente percebemos que a chuva veio fraca.
- Cadê a chuva? Pensei que fosse chover muito – comentei.
- Verdade – disse Darlon. O tempo tá ficando maluco mesmo – continuou coçando a cavanhaque e fazendo àquela cara de intelectual.
- É o aquecimento global – brinquei.
Esperávamos o dilúvio sobre Caxias, mas choveu fraquinho. O céu clareou, o gato miou, o vento parou e o telefone tocou. Normalidade. Não demorou muito e o dia foi tragado pela noite.
“A vida é assim” – pensei comigo. Às vezes criamos monstros que vem em nossa direção. Clamamos a Deus – aí lembramos Dele – pedindo ajuda e que nos livre do mal. Pensamos no pior. Perdemos o sono. Oramos como náufragos num mar cercado de tubarões famintos. O furacão que criamos se transforma numa brisa. A tsunami se transforma numa marola à moda Lula. O medo dá lugar à paz. A ansiedade dá lugar à esperança. Falando em esperança, ela invadiu meu quarto. Voou desengonçada, grudou na parede branca e me disse algo que não consegui entender. Às vezes, atitudes falam mais que mil palavras. Fala mesmo, pode acreditar. “Faça, que o exemplo arrasta” – dizia um antigo chefe escoteiro.
As crianças falavam alto na rua, o roqueiro ouvia Raul Seixas nas alturas e o vizinho brigava com a mulher. Acho que tudo voltou ao normal.
A tempestade passou...
